Review of Wild at Heart   

A subversão lynchiana

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Estamos em algum ano da década de 1980, mas a música nos remete à década de 1950. A cena ocorre numa salão luxuoso, com pessoas em vestes luxuosas durante uma cerimônia de mesmo estilo. A elegância desanda quando, descendo uma larga escada, Sailor Ripley (Nicolas Cage) é atacado por um homem que tenta lhe matar. O homem, no entanto, acabado sendo morto por Sailor numa luta ali mesmo na escada.

A cena em questão abre Coração Selvagem (1990), o quarto longa-metragem dirigido por David Lynch. O filme narra a história do casal Saior Ripley e Lula Fortune (Laura Dern), que viajam para a Califórnia fugindo da polícia – devido ao assassinato que Sailor comete na primeira cena – e da mãe de Lula, Marietta Fortune (Diane Ladd), que desaprova com veemência o romance dos dois.

A cena descrita no primeiro parágrafo já ilustra boa parte das características do cinema de Lynch, que é carregado por contrastes, sejam eles narrativos ou estéticos, chegando a remeter a diversas escolas artísticas em um só filme. A começar pela música que embala a cena. Primeiro, ela se refere aos anos 1950. Depois, durante a luta entre Sailor e o homem, um metal que se repete ao longo do filme em cenas de carga emocional semelhantes, tensas e intensas. A exemplo disso, as cenas de sexo do casal.

Em Coração Selvagem também nota-se o uso de vários estilos durante o mesmo filme. Seu cinema, aliás, é denominado “contemporâneo” por usar elementos já usados em outros filme e ressignificá-los. E ele aposta em releituras de estilos de filmes para o enredo da obra. Do resquício do Cinema Noir encontrados aqui, vê-se claramente o romance policial, o suspense, além dos contrastes de cores. As unhas e o batom vermelhos de Lula são fortemente destacados sobre o clima árido de várias cenas na estrada. O vermelho do sangue também é muito presente em algumas ocasiões.

Outro rótulo lembrado nos filmes de Lynch, inclusive neste, é o de filme infantil. Mas não da maneira como conhecemos. O “infantil” dos longas de Lynch são postos como lembranças ou sonhos dos personagens, a ponto de colocá-los em perturbação, como em um trauma. Lula tem uma fixação pelo Mágico de Oz, chegando a bater seus sapatos vermelhos em momentos difíceis, semelhante à Dorothy.

Lynch também usa o road movie norte-americano, filmes de estrada, de viagem. A própria sinopse sugere um filme desse tipo: um casal que foge à Califórnia, em um fuga da polícia e da mãe. O diretor subverte o gêneros com momentos atemporais e personagens passageiros ainda mais perturbados que os protagonistas, como é o caso de Bobby Peru (Willem Dafoe), um ex-fuzileiro naval bizarro e caricato.

Caricato é um dos adjetivos que pode se dar aos personagens do filme. Lynch trabalha com indivíduos norte-americanos estereotipados. Uma loira alta, de batom e sapatos vermelhos, com um chiclete sempre na boca. E um badboy, de cabelos e postura rebeldes, fanático por Elvis Presley. A subversão vem pelo comportamento perturbado que eles apresentam. Sua viagem tem um destino, que, aliás, possui motivo pífio, mas suas vidas estão claramente sem rumo. E isso acaba desencadeando numa loucura onde, aqui em Coração Selvagem, encontra sua redenção no sexo.

Sexo e violência. Duas premissas encontradas no escoamento da loucura dos personagens do longa. E tudo muito evidente, câmera em close. Várias cenas de violências são mostradas de maneira escatológica. Disso, pode-se destacar a primeira cena, onde o ferimento na cabeça do homem que tenta assassinar Sailor, e no assalto ao bando, onde sobram corpos perfurados por balas de revólver e até um braço decepado.

David Lynch aproveita uma história tipica de filmes americanos, recheada de maniqueismos, e a usa num crítica ao american way of life, na desconstrução dos estereótipos e da conduta do americano comum. “Ele me disse uma vez que era capaz de encontrar um homem honesto em Washington”, disse Lula em um dado momento da fita. A característica que mais norteia Coração Selvagem certamente é o uso e a desconstrução de estereótipos, subvertendo-os sob sua ótica, numa arte mais de impressão do que expressão.

8/10

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Added by Leonardo Knox 1 year ago
on 16 May 2012 10:30
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Comments

Posted: 1 year ago at May 16 14:08
Tenho muita vontade de assistir esse.

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