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Review of Construcao

Review

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Construção é lançado em um dos períodos mais negro da ditadura militar, o governo do general Emílio Garrastazu Médici. Quase um grito contido e dilacerado de um tempo que parecia cada vez mais distante a volta da democracia. Um tempo que gente era torturada e desaparecia nos porões obscuros do regime militar. Um grito de coragem em canções que transitavam entre o protesto social, a angústia existencialista e o lirismo romântico. Trazia um Chico Buarque mais maduro e definitivo, numa época dura e transitória.

“Construção” é de um brilhantismo no jogo de palavras e na estruturação e composição dos versos, de uma vertente social crua, embebedada pelo jogo das palavras, a refletir uma época em que o Brasil verticalizava as suas metrópoles, os arranha-céus subiam e geravam os mártires que os construíam, pois não havia uma legislação trabalhista que protegesse os trabalhadores da construção civil contra acidentes de trabalho. Muitos foram os operários que sucumbiram nas grandes construções do Brasil megalômano dos militares (mortos nas construções da Ponte Rio Niterói, da Transamazônica e tantas outras). Chico mostra em “Construção” essa triste realidade de desproteção social do cidadão trabalhador brasileiro.


Construção
(Chico Buarque)

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

10/10

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Avatar Added by isa 2 months ago on 10 June 2008 09:16