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The Wayward Cloud Reviews

The Wayward Cloud

O inescrutável Sabor da Melancia

Posted : 3 years, 10 months ago on 31 May 2010 08:27

Em “What Time Is It There?”(2001), um vendedor de relógios de Taipei é tomado por um impulso de ajustá-los para o horário de Paris após uma venda para uma mulher em fuga para a capital francesa. Além de trechos de “Os Incompreendidos”(1959), Jean-Pierre Léaud, francês que interpretou o alteregóico Antoine Doinel nos filmes de Truffaut, faz uma participação no longa taiwanês.

Outra menção de Ming-liang Tsai ao icônico cineasta parisiense é a conservação de mesmo personagem em seus filmes. Em 2005, o ex-vendedor de relógios,agora ator pornô, reencontra sua melindrosa compradora no musical erótico, por assim dizer, “The Wayward Cloud”.

Apesar de considerar certa alienação das premiações de Berlim depois de Tropa de Elite, concorrendo com Standard Operating Procedure, Zuo You, Hanami e There Will be Blood, a condição de Urso de Prata foi a principal referência para experimentar “O Sabor da Melancia”(2005) recentemente na Virada Gastronômica.

Uma onde de calor e seca atinge a capital taiwanesa e em meio há um severo racionamento de água as apetitosas e hidratantes melancias estão supercotadas. Na cena inicial uma mulher deitada na cama sustenta o apetitoso fruto na virilha e um homem junta-se a ela em um ato sexual inter-reino e com alguns minutos a sala lotada já perde alguns espectadores. Instantaneamente me remeteu a um dos primeiros festivais que freqüentei, uma sessão de Anatomia do Inferno(2004) com Rocco Siffredi, nome que deixou de ser indiferente no início do primeiro tempo, quando fui eu que deixei a sala de projeção.

Mas diferente do didatismo fisionomista de Catherine Breillat, o ménage com a melancia produziu mais risos do que asco, e já simpatizante do circuito asiático, eu, já não tão cinematograficamente pudica, condenei as pessoas que ceifaram a fita tão brevemente, e decidi que eles estariam perdendo. Logo, aviso, esta segue uma resenha indulgente.

E para quem estava disposto a experimentar (ou fazer uma ‘limonada’ e dar risada num madrugada fria de virada cultural), não era difícil extrair entretenimento (sem igual) nas bizarras e surrealistas passagens musicais que eventualmente rompiam a ausência de diálogos com performances cafonas, como a do protagonista que recorreu a uma cisterna para banhar-se e metamorfoseado num homem-lagarto cantava para a lua, teatrais, no drama coreografado da atriz pornô em forma de mulher-aranha ou extravagantes, com as performances musicais coletivas a la Busby Berkeley.

Aliás, aos apontamentos metalingüístico na obra do diretor malaio soma-se o existencialismo e a premissa da incomunicabilidade de Antonioni, a escola cômica de Buster Keatone e, em especial nO Sabor da Melancia, o purgar de Vincent Gallo em “Brown Bunny”(2003). Ainda houve um momento tarantinesco com uma cena em que Hsiao-Kang traga o cigarro preso entre os dedos do pé de Shiang-chyi.

Em meio a tantas alegorias, metáforas, recursos, e evasão progressiva do público durante a sessão, Tsai me convenceu a alternância entre a absurda comédia que transbordava das cenas explícitas e a comoção minimalista no tenro romance que acontecia paralelamente.

A questão evocada, acerca da real intimidade ou proximidade entre duas pessoas, desenhada de maneira inicialmente desajeitada e leviana até incomodamente pungente no literal gozo final não deixa de ser uma conferência da inescrutabilidade dos cineastas contemporâneos.



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